AGRESSIVIDADE, CIÚME E HIPERATIVIDADE NA INFÂNCIA
1 ) AGRESSIVIDADE
INFANTIL:
Os seres humanos, ao longo
do processo de civilização, são levados a se adaptarem a uma série de normas,
de forma que seja possível a convivência em sociedade. No entanto, apesar da
existência destas regras de conduta social, ainda encontramos comportamentos
considerados primitivos ou mesmo bárbaros. Fica a impressão de que esse
sentimento, que parece trazer uma forte conotação de destrutividade, é mais
complexo do que podemos imaginar.
A agressão pode ser
entendida como uma ação ou uma verbalização carregada de hostilidade que tenha
o objetivo de causar dano a outra pessoa, a si mesmo ou a alguma coisa.
Na vida diária, podem-se
verificar várias situações em que as pessoas se colocam de forma agressiva. Não
só na diversidade de situações, mas também ao longo das diversas fases do
desenvolvimento humano, a agressividade pode ser percebida com diferentes
formas de expressão.
No que diz respeito à
agressividade na infância, observa-se que quanto mais novas são as crianças,
mais elas se utilizam da agressão física para manifestar seu descontentamento
(choro, mordida, ...). Com o passar do tempo, espera-se que a criança vá
criando recursos de simbolização e a agressão passe a ser expressa de outras
maneiras, por exemplo, verbalmente.
Alguns estudos revelam que
o tipo de relacionamento familiar interfere nos padrões de agressão da criança.
Pais que são mais punitivos e que rejeitam a criança têm filhos mais
agressivos. Já os pais que conseguem ter uma relação mais saudável, acabam
levando os filhos a serem mais tranquilos.
Mas a agressividade não é apenas um aprendizado ligado ao
modelo familiar. Ficam, então, algumas perguntas: Se a agressividade é
percebida em várias fases da vida, será ela inerente ao ser humano? O que faz
desencadear o comportamento agressivo? Se as crianças pequenas ainda não estão
socializadas, como lidar com a agressividade delas? Será que a agressividade
não pode ser saudável em algum aspecto?
Em relação à agressividade,
enquanto características humanas existem algumas divergências entre os
teóricos. Alguns acreditam que seja fruto de alterações cromossomiais. Outros
acreditam que a agressividade está associada a um instinto, que se manifestaria
a partir de uma privação corpórea: fome, frio, sede, alterações hormonais, etc.
Há ainda os que defendem que o comportamento agressivo é desencadeado pelo
sentimento de frustração.
Entre os que defendem essa
última hipótese, também há divergências: uns acham que a agressividade é
simplesmente desencadeada pela frustração, enquanto outros dizem que a
frustração pode estar ligada a questões de sobrevivência ou ao jogo de poder
entre as pessoas. De uma forma ou de outra, a agressividade é precedida da
frustração e como não é possível evitar todas as frustrações, é preciso
aprender a lidar com a agressividade ou desenvolver maior tolerância a
frustrações.
Se a diminuição dos
comportamentos agressivos está ligada à capacidade de suportar as frustrações,
entende-se que no início da vida eles devam ser vistos como algo normal. As
mordidas, os empurrões, os puxões de cabelos e outras situações indesejáveis,
são comportamentos compreensíveis, quando vêm de alguém que ainda não
desenvolveu estruturas psíquicas que são imprescindíveis para a percepção do
outro e para suportar o desprazer. Além disso, é provável que a falta de
assimilação das normas sociais, o egocentrismo e a ausência da função simbólica
colaborem para a dificuldade que muitas crianças têm de lidar com a própria
raiva, não contendo o comportamento agressivo.
Mas o que devem fazer os
educadores para contribuir com o bom desenvolvimento social da criança?
Sabe-se que as crianças
muitas vezes têm ganhos secundários com o comportamento agressivo. Normalmente
conseguem a atenção que desejam, mesmo que seja de forma punitiva.
Sendo assim, é preciso que os educadores
sejam capazes de perceber a necessidade da criança e que consigam agir com
clareza, coerência e tolerância diante da imaturidade infantil, oferecendo um
modelo saudável de convivência. Isso significa poder acolher a criança num
momento de irritação. A capacidade do educador de aguentar e nomear os
sentimentos para a criança vão, aos poucos, ajudando a desenvolver a tolerância
à frustração, tendo como consequência a maior utilização do pensamento, uma
melhor percepção de si e do outro e a diminuição dos comportamentos impulsivos
e hostis.
Outra questão polêmica é
influência da televisão nos comportamentos agressivos. Podemos dizer que a
agressividade, enquanto não pode ser pensada e digerida, precisa ser
liberada e os desenhos de luta são um modelo de extravasamento, muitas vezes
estando carregados de simbolismo. No entanto, melhor seria oferecer modelos
mais saudáveis de liberação dessa energia como, por exemplo, as atividades
esportivas, que permitem a disputa e movimentos de extravasamento, estando
guiadas adequadamente pelas regras do jogo ou pela intermediação do educador.
2)O CIÚME EM CRIANÇAS
O termo ciúme, geralmente,
refere-se ao sentimento de posse em relação àquilo que é desejado. Trata-se de
um sentimento de insegurança, ou seja, um medo de perder algo ou alguém.
Desta forma, espera-se que
também esteja envolvido um sentimento de rivalidade em relação a tudo que possa
ameaçar a união entre o indivíduo e aquilo que lhe parece ser vital.
Assim como outros sentimentos, o ciúme é
visto de forma diferente em diferentes fases da vida. Em adultos, o ciúme pode
estar associado a um quadro psicopatológico ou mesmo a traços de insegurança e
sentimento de inferioridade. Porém, quando se trata de crianças, o pode deve
ser compreendido como algo normal, devido ao tipo de relação estabelecida nessa
fase. Principalmente no início da vida, a relação entre o bebê e a mãe é dual, existindo
pouco espaço para outras ligações afetivas. Neste momento, é natural que a
criança se incomode com tudo aquilo que ponha em risco sua exclusividade em
relação aos cuidados maternos.
Um bom exemplo do ciúme na
infância é o nascimento de um irmãozinho. Espera-se que o recém-nascido
desperte o ciúme da criança, por “roubar-lhe” parte da atenção, do carinho, ou
seja, do espaço que antes era só seu. Essa alteração da relação afetiva pode
gerar diferentes reações naquele que perdeu a exclusividade, manifestando seu
descontentamento pela irritação, pela “greve de fome”, pelo aparecimento de
doenças de fundo psicológico, comportamentos hostis, etc. Para que a chegada do
recém-nascido seja menos dolorosa para a criança, cabe aos pais criarem um ambiente
de participação da criança nos preparativos. Seu contato com o bebê pode estar
associado a tarefas simples de cuidado, como: buscar fraldas, levar visitas
para conhecê-lo, ajudar a mãe a trocá-lo, sentindo-se assim importante e
integrada à nova situação.
Entende-se que com o
desenvolvimento da fala e da capacidade de andar, o número de ligações afetivas
e a autonomia aumentem, mas a segurança para ir se libertando da relação dual e
do sentimento de posse vai depender de como se deu o relacionamento com a
pessoa que cuida e o quanto de segurança se pôde construir.
3) O CIÚME NA ESCOLA
Sabe-se que as relações
vividas com a mãe, ou com a pessoa que cuida, servem de modelo para as demais
relações que a criança estabelece.
Quanto às crianças que vão para
instituições (creches e hoteizinhos) muito cedo, espera-se que a relação
afetiva estabelecida com a educadora seja bastante forte. Esta situação se dá
pela presença de características como a relação dual, a necessidade do contato
físico e uma boa dose de dependência quanto à alimentação e à higiene, próprias
do início da vida. Como as instituições não têm condições de manter uma
educadora para cada criança, tornam-se muito frequêntes as manifestações de
ciúme dentro do grupo.
Para evitar complicações
como a agressão entre as crianças, é preciso que a educadora tome alguns
cuidados: evitar o contato excessivo com apenas uma criança, procurando
distribuir a atenção a todas e desenvolver atividades de cooperação (dependendo
da idade) para que o convívio seja valorizado. É importante que a criança vá
desenvolvendo a idéia de que o carinho e a atenção podem ser divididos e que
isto não significa que ela se tornou menos amada.
Outra sugestão é o uso de
brincadeiras de faz de conta. Por exemplo, dar várias bonecas para que a
criança cuide delas. Isso pode ajudá-la a entender a posição da mãe e da
educadora, percebendo que há tempo, atenção e amor para todas.
4) A CRIANÇA HIPERATIVA
Até este momento,
consideramos o desenvolvimento normal da criança de 0 a 6 anos. Porém, o
dia-a-dia das pré-escolas é também marcado por variações no comportamento
infantil que muitas vezes dificultam o trabalho dos educadores e comprometem as
atividades desenvolvidas com o restante da turma. É o caso da criança hiperativa.
A hiperatividade é
considerada um problema da atenção e da impulsividade, representada pela sigla
TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade). Normalmente já se
manifesta no início da vida, mas há estudos que mostram seu surgimento por volta
dos 12 anos. As características mais observadas são a excitação motora e a
dificuldade de concentração.
As possíveis causas da
hiperatividade envolvem alterações neurológicas provocadas por: questões
hereditárias; substâncias ingeridas durante a gravidez (ex: álcool e nicotina);
problemas no parto que tenham provocado sofrimento fetal (ex; falta de
oxigenação no cérebro); e exposição ao chumbo.
No contexto escolar, as
crianças hiperativas costumam apresentar dificuldades nas relações
interpessoais. Podem apresentar também problemas de aprendizagem causados pela
falta de concentração. Encontram dificuldades para escrever e se expressar com
clareza, ficando confusas e irritadas com os vários estímulos do ambiente.
Estas crianças são as primeiras a serem percebidas. São aquelas que ganham um
lugar especial na sala e são consideradas o problema da classe. Não ficam
quietas, falam excessivamente, provocam discussões, são desajeitadas, deixam
cair as coisas e é comum que façam várias perguntas e não esperem as respostas.
No que diz respeito à
postura dos educadores, espera-se que possam compreender que crianças
hiperativas requerem cuidados especiais, visto que seu problema é fruto de
disfunções neurológicas, sendo necessária a intervenção medicamentosa. Algumas
atividades táteis (argila, areia, pintura, etc.) constituem um importante
instrumento no trabalho com essas crianças, ajudando-as a se concentrar e a
desenvolver uma melhor noção do seu corpo e dos seus sentimentos. Entre as atividades
que podem ser desenvolvidas, as que têm maior efeito no sentido de acalmar a
criança são as atividades com água.
Um problema sério no
contexto da hiperatividade é o diagnóstico tardio. Normalmente a criança é
rotulada como desobediente e sofre inúmeras punições até que os pais sejam
alertados para o problema. Esta situação traz evidentemente graves consequências
psicológicas para a criança que podem resultar na estruturação de uma
autoestima empobrecida.
Apesar da seriedade da situação,
observa-se que muitas crianças agitadas ou ansiosas têm sido equivocadamente
classificadas como hiperativas em função de seu comportamento inquieto. Deve-se
tomar cuidado com tal afirmação para que aquelas crianças que apresentam
agitação em função de problemas emocionais não deixem de receber os cuidados
adequados.
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