Transtornos específicos da aprendizagem (TEA)


                             
                              De acordo com o código internacional de doenças (CID 10), os transtornos de aprendizagem “(...) são transtornos nos quais os padrões normais de aquisição de habilidades são perturbados desde os estágios iniciais do desenvolvimento. Eles não são simplesmente uma consequência de uma falta de oportunidade de aprender nem são decorrentes de qualquer forma de traumatismo ou de doença cerebral adquirida. Ao contrário, pensa-se que os transtornos originam-se de anormalidades no processo cognitivo, que derivam em grande parte de algum tipo de disfunção biológica” (CID – 10,1992: 236).
                        Para algumas pessoas, os anos escolares estão naturalmente encadeados em um desenvolvimento contínuo e crescente de suas habilidades acadêmicas e seu desempenho reflete esse percurso. Para esses alunos, aprender da maneira como as escolas ensinam, é natural. Mas não é assim para todos. A educação de alunos com transtornos específicos de aprendizagem (TEA), em especial a dislexia e a discalculia, tem trazido desafios aos métodos pedagógicos e propostas curriculares vigentes em nosso país.
                        A situação ainda é muito adversa, expondo alunos e familiares a níveis críticos de risco emocional e financeiro. Em decorrência da natureza neurobiológica de suas dificuldades, as crianças e jovens com TEA têm que trabalhar com fragmentos de informação, na difícil tarefa de tentar atribuir um padrão à informação que recebem. Esse universo “fragmentado” contribui para reforçar o senso de frustração construído ao longo de uma vida escolar sofrida, marcada pelo fracasso. Com os recursos cognitivos ocupados em lidar com sua dor psíquica, o jovem não pode avançar em seu processo de aprendizagem e, então, se vê aprisionado no sistema escolar. Como não tem as ferramentas, não consegue aprender pela metodologia convencional e, como não aprende, não pode ser legitimado como sujeito que tem interesse em aprender.            
                        Transtornos específicos da aprendizagem, estima-se que 6 % da população mundial possua algum tipo de transtorno específico de aprendizagem (TEA). Esses transtornos persistentes manifestam-se muito cedo na vida e não decorrem da falta de oportunidade de aprender, de deficiência intelectual ou sensorial ou de doenças adquiridas. Quase sempre, resultam em muito sofrimento para o indivíduo e sua família. Se não houver uma intervenção personalizada e de longo prazo, a defasagem de desempenho na escola aumenta com o passar dos anos, resultando em prejuízos pessoais irreparáveis tais como: abandono escolar, transtornos psico-afetivos, inadaptação social e subemprego.
                        Estatísticas americanas indicam que 40% dos jovens com TEA não concluem o ensino médio naquele país. Os TEA são classificados: transtorno de leitura, transtorno de expressão escrita, transtorno de habilidades matemáticas, transtorno não verbal e transtorno de linguagem, entre outros. É mais fácil estudá-los e explicá-los dessa forma, mas, na realidade, um indivíduo com transtorno específico de aprendizagem nunca será igual a outro, haverá sempre uma interação entre suas parcelas de “dificuldades” e de “aptidões” inatas e do meio familiar, educacional e sociocultural em que ele está inserido, resultando numa trama única.
                        Apesar de únicos na manifestação de suas dificuldades, crianças e jovens com TEA compartilham o fardo do mau desempenho na escola e com frequência são rotulados por colegas, pais e professores como preguiçosos, pouco empenhados e incompetentes. Indivíduos com TEA precisam ser ajudados e, felizmente, existem meios para que isso aconteça. Não há atalhos, o caminho é longo e árduo, mas essas crianças e jovens e suas famílias não precisam empreender a jornada sozinhos. O primeiro passo é identificar as dificuldades e providenciar uma avaliação interdisciplinar da aprendizagem. A partir dos achados da avaliação e do diagnóstico, delineia-se um percurso de intervenções e orientações para aquela determinada criança e ou jovem.
                        O transtorno específico da habilidade de leitura, também conhecido como dislexia tem sido o mais estudado. Seguido dele, mas bem menos explorado, vem o transtorno específico das habilidades matemáticas, também denominado discalculia. A dislexia é um transtorno de aprendizagem e, como tal, tem origem neurobiológica e caráter permanente. Caracteriza-se pela dificuldade com a fluência correta na leitura e pela dificuldade na habilidade de decodificação e ortografia. Alunos com dislexia podem apresentar:  leitura lenta e hesitante, trocas, acréscimos, inversões e omissões de letras  falha na compreensão e interpretação do material lido,  fuga de situações que envolvam leitura,  escrita espelhada e ou lenta com repetição de letras, sílabas ou palavras.  escrita rasurada, com trocas visuais, auditivas e espaciais, além de omissões, inversões e acréscimos.
                        Discalculia é um transtorno de aprendizagem e, como tal, tem origem neurobiológica e caráter permanente. Caracteriza-se pela dificuldade para o entendimento e acesso rápido a conceitos e fatos numéricos básicos. Alunos com discalculia podem apresentar:  dificuldade para entender conceitos numéricos simples (tais como o local/valor e o uso das quatro operações); falta de conhecimento intuitivo sobre números (valor e relação entre os números);  problemas para aprender, evocar e ou usar fatos e procedimentos numéricos (ex: mesmo que estes alunos produzam uma resposta correta ou usem um método correto, eles geralmente o fazem de maneira mecânica e sem confiança. Como lidar com a situação?
                         Os transtornos de aprendizagem (TEA) têm impacto negativo global na vida das crianças e jovens que os possuem e de suas famílias. Quanto mais precoce, intensiva, especializada e interdisciplinar for a intervenção que receberem, melhores serão os resultados. Não existe receita de bolo para tratamento dos TEA.É preciso que a  escola esteja disposta a realizar as adaptações acadêmicas de acordo com o grau da dificuldade da criança ou jovem e a trabalhar em parceria com a equipe interdisciplinar e com a família.
                        Pesquisas indicam que alunos com transtornos de aprendizagem têm mais sucesso no ensino superior quando desenvolveram sólidas habilidades de expressar suas vontades e ideias. Dentre as habilidades de autoconhecimento importantes de serem estimuladas nos alunos com TEA, poderíamos citar:  conhecimento da sua forma de aprendizagem, habilidade de articular suas necessidades de aprendizagem,  habilidade para comunicar essas necessidades aos outros.
                        A busca de ajuda para a superação dessas dificuldades tem que vir inicialmente dos pais e, quanto mais precoce, melhor. O papel da escola quando houver suspeita de que um aluno possui algum tipo de TEA, a escola deve providenciar junto às famílias o encaminhamento para um diagnóstico interdisciplinar e incentivar a identificação e o tratamento desse aluno. Deve promover acompanhamento consistente e afirmativo para essas crianças e jovens e incentivar os professores a desenvolver programas que favoreçam a integração social e o uso de estratégias pedagógicas diferenciadas de abordagem para cada caso particular. Um plano individualizado para cada ano letivo deve ser discutido entre direção, coordenação, professores, pais e, se possível, o aluno, para garantir que ele tenha acesso às adaptações logo no início do ano.
                        No ano seguinte, a coordenação e os professores precisam ter acesso ao plano que está sendo seguido e a seus resultados. Os tópicos a seguir são algumas sugestões de estratégias e adaptações para alunos com TEA.      Naturalmente, cada caso deve ser analisado em sua individualidade e a abordagem vai variar em função do tipo do transtorno e de sua severidade. A existência de um TEA, seu tipo e sua severidade precisam ser definidos no relatório da avaliação interdisciplinar da aprendizagem e serão monitorados no acompanhamento interdisciplinar de cada caso.
                        Podemos afirmar, sem exagero, que todos os alunos com dislexia ou discalculia necessitarão de adaptações pedagógicas e ou curriculares em algum momento de suas vidas acadêmicas. Alguns deles precisarão desse apoio apenas por um período de tempo, outros até a conclusão do ensino médio ou superior e alguns durante toda a sua vida profissional. Lembrem-se de que não podemos penalizar um indivíduo por possuir uma forma de aprender que não corresponde às expectativas da escola e ou da sociedade. Em geral, a abordagem escolar do TEA deve ser: preventiva, individualizada, multissensorial e sequencial. Seguem algumas sugestões:  A coordenação deve informar aos professores de todas as disciplinas sobre o fato do TEA e discutir com cada um deles quais estratégias serão empregadas, permitir gravação da aula, ou participação de um Psicopedagogo(a) para ajudar a tomar notas,  oferecer para o aluno com TEA tempo extra para completar as tarefas e avaliações,  evitar sobrecarga da memória de trabalho, designar tarefas que estejam dentro das habilidades dominadas,  ter um Psicopedagogo (a) para acompanhar o aluno individualmente na escola e fora dela,  certificar-se de que o aluno entendeu a matéria ensinada, solicitando-lhe que explique o assunto oralmente para o professor ou Psicopedagogo(a) , em situação individual,  permitir que o aluno acompanhe seu progresso, que fatos ele domina e quais conteúdos ainda precisam ser aprendidos,por fim, dar tempo extra para o aluno processar a informação.

            Referência: Psicopatologia da Infância e Adolescência.
           
                       

                          

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